quinta-feira, 9 de julho de 2009

A impermanência das coisas

Ser escorpiano não é tarefa pra qualquer um. Muito menos pra quem não entende patavinas de astrologia e dessas coisas new age, como eu.

Somos tachados sumariamente de vingativos, tempestuosos, rancorosos e mais uma infindável série de atributos dos quais até Lúcifer se esquivaria com receio. Até provarmos que sapo não é jacaré, o interlocutor já saiu correndo quando mal terminamos de balbuciar as primeiras letras da resposta à fatídica questão: "Qual é o teu signo?" E se passa um táxi por perto nesse instante, pode apostar que o fugitivo sai cantando aquela canção chicletífica da Angélica como fosse o derradeiro mantra de salvação! Raramente ouço alguém ressaltando (digo voluntariamente, e não por temor) a lancinante lealdade de um escorpiano, tampouco sua visceral lascívia, características tão apreciadas nos momentos de dor e/ou prazer.

Não digo que a má fama é injusta porque não conheço todos os membros desse clube tão distinto e tão precipitadamente temido. Além do mais, é como dizem: "onde há fumaça, há fogo..."

O que fazer quando, por anos a fio, você se esforçou para nunca ser o que pintam do seu signo e, ainda assim, o estigma perdura, a despeito dos hercúleos esforços dispendidos à toa? Correr? Mentir ("Sou de Peixes!" — Todo mundo adora peixes...)? Apelar pro direito de manter silêncio sobre questões astrológicas? Afirmar desconhecer a data de seu nascimento?

Tanto faz. Fugir das (ou fazer-se indiferente às) reações é insignificante diante da questão que urge no revés: o que fazer quando você tem uma recaída e sofre de uma vez só toda a escorpionice que represou por anos pelo bem da nação?
Chorar? Lamento, resposta errada. Pra isso seria preciso sentir algo um tanto mais sutil do que aquilo que tão perfidamente caracteriza o escorpiano entre as boas e más línguas. Foi-se meu tempo de ostentar sutilezas no coração.

Coração... Outro problema prum escorpiano. Quando trabalha, trabalha demais. Pulsa como se não houvesse amanhã e sente tudo que pode, até os sentimentos que não lhe pertencem. Quando esfria, porém, petrifica-se. Um pequeno fragmento de rocha fria ocupando o espaço de um punho cerrado no peito. Não sente mais nada, nem a ira que o mantinha vivo nos momentos ruins (e creiam-me: diante do vazio que certas perdas ou frustrações podem ocasionar, a fúria, ladeada pelo ódio e pela raiva — seus eternos arautos —, torna-se um bálsamo, uma vazão de oxigênio para um infeliz que se afoga, o fio que ainda o liga à gana de permanecer aqui...). Só ocupa espaço. Evidente que isso só se dará depois de uns tantos arroubos de fúria vulcânica, como rezam os cânones. Afinal, estamos falando de escorpianos...

Rege a roda, então, a impermanência: depois que esfria a gema, o portador é tomado por uma paz sem igual. Impera uma calma lapidar, nada mais o preocupa. Nada o atinge, nada o desloca de seu ponto de equilíbrio. Rege novamente, a dita: vem a vida, saltitando como um coelho histérico e neurótico, e o atinge em cheio com uma boa surpresa — aparentemente mais um episódio como qualquer outro que, no entanto, vai tornando-se a cada segundo mais interessante, mais intenso, mais sedutor... Até que num determinado instante constata-se que a rocha já não é tão fria.

Movimento. Um pulso. Outro. Muitos, aos cântaros, irrompendo como mil lagartos que já não mais suportam a segurança claustrofóbica de seus ovos. Nada é moderado quando esse vulcão adormecido começa a dar sinais de atividade. Calor. Em diante, a Queda. Porque abandonar a paz que a muito custo se conquistou é tão fatal quanto inevitável; as conseqüencias idem. Não fossem tão previsíveis, talvez o atordoamento da surpresa amenizasse os danos, mas vê-las chegando desde longe, tão velozes e famintas quanto potencialmente devastadoras, só acentua o amargo.

Um escorpiano que deseja ter paz deve manter sua rocha bem guardada, longe do calor. A entrada cerrada a sete selos. Um leão, um touro, um homem e uma águia guardando cada artéria, até ter certeza de que a chama que lhe assedia não é fogo-fátuo. Caso contrário, vai acabar escrevendo baboseiras sem o menor interesse sobre seu signo num blog ou em algum espaço que o valha. E convenhamos: isso é ridículo!*

"Olá, tudo bem? Meu nome é Fellipe e eu sou de Peixes!"
Só estou treinando...


* Mas é ÓBVIO que eu vou postar assim mesmo. Obstinação, sabem? Outra coisa de que não se fala num escorpiano...